justine
está nascendo mais um espetáculo que se tornará um marco na trajetória da cia. de teatro satyros: "justine". a montagem fecha a trilogia libertina, composta por adaptações para o palco de romances fundamentais do marquês de sade. "justine" foi antecedida por "filosofia na alcova" e "cento e vinte dias de sodoma". com a nova encenação, que entra em cartaz na próxima terça, dia 21 de abril, a trilogia libertina estará completa em cartaz, em dias alternados, no espaço dos satyros 2. quero uma hora dessas escrever sobre as três peças. mas agora vou registrar apenas as primeiras impressões caóticas de "justine", que vi ontem, em ensaio aberto. mais uma vez sade, via satyros, nos desfere um tremendo soco no estômago. "os infortúnios da virtude" é o subtítulo de "justine" e explica tudo que acontece. sade proclama, feroz, que o crime compensa, a virtude não. ao traçar a trajetória das irmãs justine e juliette, a primeira uma alma cândida que aspira ao bem, a segunda uma libertina que não se detém ante os maiores crimes, sade narra uma história de horrores. justine será abusada, estuprada, escorraçada, humilhada, acusada de roubos e mortes que não cometeu. e mesmo assim não perde a aspiração ao bem, desejo que nunca se consuma. ou melhor, quando se consuma, quando ao fim de uma trajetória cruciante, ela se reencontra com a irmã, juliette, que, rica e poderosa, a acolhe em seu castelo e lhe oferece abrigo, acaba sofrendo uma morte tremenda pela violência da natureza, que, indiferente ao vício e à virtude extingue a vida em justine com um raio, durante uma tempestade. esse romance, um dos mais famosos do marquês de sade, resultou numa montagem potente, obra de rodolfo garcía vázquez e da equipe que criou "justine" com ele. são imagens aterradoras e fascinantes que tomam o palco durante 95 minutos. uma história cheia de atritos, desagradável, terrível, é contada de forma tão densa, tão concentrada, que invade o espectador com seu peso, sua escura descrença. a mensagem de "justine" não é otimista, não é jubilosa. é sombria, e nos relata uma aventura humana sem grandeza. como se pode dizer que sade elogia o crime quando na verdade mostra todo o seu horror? o espetáculo é daqueles a que é preciso assistir mais de uma vez. tem uma abundância alucinante de sugestões visuais e sonoras que deve ser bem vista para ser entendida. o elenco, encabeçado por andressa cabral, como justine, mergulha de cabeça na aventura de viver esse sombrio (e quando ele não é sombrio?) sade. as atuações vão crescer, amadurecer. mas na maioria já estão ancoradas em patamares bem consistentes. ainda há ajustes de figurino e de técnica a serem feitos. mas o espetáculo está vivo, intenso, desafiador. diz para nós, como a esfinge, "decifra-me ou te devoro". desde ontem estou sendo perseguido pelas cenas dessa "justine" que tem a marca de rodolfo, como encenador. é diferente de tudo que ele já faz e, ao mesmo tempo, ninguém, senão ele, poderia criar essa montagem. em cena há como que uma reelaboração de toda a trajetória dos satyros, mas de um modo que não fica restrito na nostalgia, na contemplação do passado. ao contrário, aponta impetuosamente para o futuro. vou escrever mais a respeito. por enquanto só queria dar conta aqui do profundo e vital incômodo em que "justine" me mergulhou. ah, e o que é aquela trilha sonora? caramba! é muito boa. agora chega, depois conto mais.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Atualizações
Direção e adaptação: Rodolfo Garcia Vázquez
Assistente de direção: Samuel Leon
Texto original: Marquês de Sade
Cenário e figurino: Marcelo Maffei
Trilha Sonora: Henrique Mello
Elenco: Andressa Cabral, Antonio Carlos Campos, Carolina Angrisani, Danilo Amaral, Diogo Moura, Eduardo Prado, Erika Forlim, Gilberto Scarpa, Gisa Gutervil, Henrique Mello , Luana Tanaka, Luiza Valente, Marcelo Thomaz, Marta Baião, Robson catalunha, Rodrigo Souza, Ruy Andrade, Samira Lochter e Thiago Martelli.
Assistente de direção: Samuel Leon
Texto original: Marquês de Sade
Cenário e figurino: Marcelo Maffei
Trilha Sonora: Henrique Mello
Elenco: Andressa Cabral, Antonio Carlos Campos, Carolina Angrisani, Danilo Amaral, Diogo Moura, Eduardo Prado, Erika Forlim, Gilberto Scarpa, Gisa Gutervil, Henrique Mello , Luana Tanaka, Luiza Valente, Marcelo Thomaz, Marta Baião, Robson catalunha, Rodrigo Souza, Ruy Andrade, Samira Lochter e Thiago Martelli.
Correção: Justine - os infortúnio da virtude estréia dia 21 de abril no satyros 2 - 21 h
Hoje no ensaio faltando exatos 19 dias para a estréia, e com o espetáculo ainda por terminar (falta muito pouco!), dei uma escapadela da coxia e sentei na platéia para assistir parte do espetáculo da qual não faço parte:
Bolhas multicoloridas que surgem e desaparecem em um ritmo frenético, esquizofrênico, louco. É assim que as cenas se constroem e se diluem no espaço. Um pequeno exemplo disso é o surgimento da costureira, do padre e por aí vai... Vontade de rir com a exótica Du Buisson e seu “gramelônico” assistente, e finalmente na cena dos Harpin uma inacreditável experiência estética, com os eletros carregados pelas diversas Justines mascaradas. E de repente... Tudo some. Palco vazio novamente. Tudo começa a se reconstruir. Pausa para a cena do julgamento. Então sou pega de supetão, esganada, arrebata pela criminosa Dubois. Choro de desespero. Inexplicável. Retomo a respiração e me preparo para assistir a cena do marquês de Bressac (uma das minhas preferidas do lado de lá da coxia), e me espanto com a violência que nunca havia visto nela antes. Lá atrás vejo um ator passando por trás da coxia ainda invisível... E poderia ser assim mesmo. Com Justine caída toda ensanguentada, me ponho a chorar novamente. Ela se recupera e segue sentido Convento de Saint Marie dês Bois, sigo atenta a movimentação de cada ator que desenha no meu imaginário, junto com a trilha e iluminação) um cenário gigantesco e fantático de diversas situações e acontecimentos. É hora de voltar, mas o ensaio acaba. Vontade de mais.
Reflito: Rodolfo Garcia Vázquez, Ivam Cabral(que não está tão perto, mas sempre presente) e a Cia Os Satyros vão além da alquimia que fazem com as diversas linguagens teatrais. Inventaram a nova dramaturgia e seguem na experimentação de um novo rumo para as interpretações.
Bolhas multicoloridas que surgem e desaparecem em um ritmo frenético, esquizofrênico, louco. É assim que as cenas se constroem e se diluem no espaço. Um pequeno exemplo disso é o surgimento da costureira, do padre e por aí vai... Vontade de rir com a exótica Du Buisson e seu “gramelônico” assistente, e finalmente na cena dos Harpin uma inacreditável experiência estética, com os eletros carregados pelas diversas Justines mascaradas. E de repente... Tudo some. Palco vazio novamente. Tudo começa a se reconstruir. Pausa para a cena do julgamento. Então sou pega de supetão, esganada, arrebata pela criminosa Dubois. Choro de desespero. Inexplicável. Retomo a respiração e me preparo para assistir a cena do marquês de Bressac (uma das minhas preferidas do lado de lá da coxia), e me espanto com a violência que nunca havia visto nela antes. Lá atrás vejo um ator passando por trás da coxia ainda invisível... E poderia ser assim mesmo. Com Justine caída toda ensanguentada, me ponho a chorar novamente. Ela se recupera e segue sentido Convento de Saint Marie dês Bois, sigo atenta a movimentação de cada ator que desenha no meu imaginário, junto com a trilha e iluminação) um cenário gigantesco e fantático de diversas situações e acontecimentos. É hora de voltar, mas o ensaio acaba. Vontade de mais.
Reflito: Rodolfo Garcia Vázquez, Ivam Cabral(que não está tão perto, mas sempre presente) e a Cia Os Satyros vão além da alquimia que fazem com as diversas linguagens teatrais. Inventaram a nova dramaturgia e seguem na experimentação de um novo rumo para as interpretações.
terça-feira, 24 de março de 2009
Estréia oficial 20 de abril de 2009
Na sequência abaixo, fotos inéditas de cenas do espetáculo, que conta a saga de Justine pelos infortúnios da virtude.
Justine nos braços do Conde de Bressac
Já no convento, onde procura abrigo moral.
O misterioso convento!
fotos: Marcelo Maffei
fotos: Marcelo Maffei
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Nietzsche para Sade.
"O que pode ser desfrutado em comum é sempre coisa de baixa definição, de pouco valor. Enfim, as grande coisas estão reservadas para os grandes espíritos, os abismos, para os espíritos profundos, as delicadezas e os calafrios reservados aos refinados, numa palavra: as raridades para os raros."
Friedrich W. Nietzsche em "Além do Bem e do Mal"
Eis o site do fotógrafo Peter Witkin
http://www.edelmangallery.com/Witkin/witkin2.htm
Henrique Mello
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Justine
"Se é verdade que a literatura descreve aquilo que a filosofia conceitua, Justine ou os infortúnios da virtude não escapa a esta afirmação e, mais, explicita de forma fiel a relação de Marquês de Sade com sua filosofia. Escrita em 1788, quando o Marquês já estava preso há cinco anos na Bastilha e um ano antes de ser transferido para Charenton, esta obra, como quase tudo escrito por Sade, revela suas idéias sobre a política, a igreja, o amor, a Providência Divina e o sexo aos olhos do materialismo a partir dos mais bizarros e infelizes desencontros na vida de uma jovem devota que abre mão de seguir sua irmã ao tornar-se órfã de pai e mãe. Julieta aventurou-se pelos caminhos da má conduta ao prazer de ser livre com o intuito de ser uma grande dama portadora de grande riqueza. Conseguiu, mesmo que para isto tenha se utilizado de subterfúgios, tais como: crime, roubo, mentira, prostituição entre outros modos de vida descritos nas obras de Marquês de Sade. Enquanto isto, Justine, ao contrário de Julieta, dotada das mais belas virtudes, cairia nas mais ardis situações que colocariam à prova sua crença na Providência e na bondade dos homens. Em momento algum abandonou o caminho do bem. Duas irmãs separadas pela vida e pelo temperamento encontram-se anos mais tarde, uma rica e a outra sendo condenada ao cadafalso. Como afirma Sade, é pela aprendizagem mais vergonhosa e mais dura é que estas senhoritas abrem seu caminho."
post Raíssa Peniche
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